Subitamente e com um simples “Hi” fiquei aos pulinhos de contentamento. O rufia que me deu a mão, que me ensinou que dar a mão é o maior sinal de confiança, que me deu a conhecer um submundo, uma inconstância com o misto de dor e de prazer vem apanhar ar à Europa. Que alívio, para mim porque andava em sufoco, não tenho saudades, tenho só um “preciso” dos grandes. E preciso mesmo, hã!
Há uns anos atrás estava eu em espiral, rodopiava sobre mim mesma e alguém que eu não conhecia de parte nenhuma num sítio que já nem me lembro bem, só sei que foi em Greenwich village disse-me “your eyes are a confused mix of angel and devil. Do you lend them to me for a few days?”. Pois, emprestei e mais que isso permiti-me a ver pelos olhos dele … daí resultou que eu fui a bóia de salvação para ele e ele puxou-me para a margem. Ganhámos os dois e saímos vencedores. Vencemos uma batalha os dois e sempre fundada numa imensa confiança que se apresentou no primeiro minuto. Daí retirei um bom ensinamento que uso invariavelmente embora em algumas ocasiões não faça a correcta leitura. Ele sempre me disse se alguém te recusar as mãos não é de confiança, não crê nelas o sentido que têm, e não é que o maior rufia sabe o que diz?!
Porque é que confiei nele se não tem ar de pessoa confiável? Porque sabe ler as mãos …
Eu ainda não sei … pode ser que aprenda.
É um artista de mão cheia, eu disse-lhe muitas vezes que aqui, em Portugal quando se chama artista a alguém pode ser num sentido muito depreciativo, o típico “olha que grande artista!”, ele é um grande artista e tem cada arte que só se ganha com calo, com vida, com passagens, com credos, com gritos, com tiros, com risos, com vidas, com mortes, com choros … é a vida! A vida é isto, é assim, dói, mais ou menos, as vezes nem dói mas sente-se, quer-se, e vive-se. Eu vi os meus olhos transpostos para a tela e vi-os melhor que se me visse ao espelho, engraçado que o que vi na tela nunca consegui ver no espelho, perguntei-me tantas vezes, mas ele consegue ver uma coisa que nem eu consigo? Valeu-nos um desempate de vida aquela tela, desempatou-nos situações limite, nunca mais a vi e provavelmente nunca mais a vou ver, também nunca mais vi o que vi na tela porque aprendi algumas coisas, porque ele durante o processo ensinou-me algumas coisas e o que estava representado já passou … Grande tela, grande artista, grande homem, grande rufia!
Durante aquele tempo tive medos, cresceram-me medos e matei outros medos, foi um equilibrar da balança, lembro-me de matar o tempo em noites altas e gostar de ver as luzes da cidade … de me sentir segura nos sítios mais inseguros, é uma questão de negociação interior dizia ele, e bem. É mesmo, negociar intimamente medos, temores, fobias, receios, dúvidas, saber fazer cedências a uns e proibir outros é um negócio que as vezes até falha mas aprende-se, experimenta-se …
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